A Retirada para o Brasil

A Retirada para o Brasil

 

Jordão Emerenciano

 

Editora TRADIÇÃO

Recife – 1945

 

 

 

Uma transcrição sem fins comerciais de:      

Henrique Alberto Silveira Luiz

Brasil   ANO 500

Para resgatar uma verdadeira página da História de Portugal e do Brasil

 

 

 

 

Para muitos historiadores – desses que transformam a história em guerra civil – a retirada de Dom João VI para o Brasil foi, simplesmente, em boa linguagem, uma fuga. Fuga que valeu por uma autêntica deserção portuguesa, ou quando muito uma feliz manobra política pelo medo, pelo egoísta salve-se quem puder.

 

“A retirada para o Brasil é assim – diz incisivamente Antônio Sardinha – olhada como um expediente de ocasião em que só o susto mandou e o patriotismo esteve ausente de todo”. (1) Segundo tais panfletários da história só houve em toda aquela delicada questão um gesto de coragem e de altivez – aquele da Rainha louca a se debater furiosa contra os que a levavam, gritando que aquilo era fuga. Paradoxalmente querem eles que a única que teve razão naquele dia foi a louca. Deve-se ao talento daquele grande agitador da história, daquele torturado e genial Oliveira Martins – que inegavelmente era um vivo e fascinante estilo, a reconstituição mais ou menos imaginosa da cena trágico-heróica da Rainha anematizando a retirada.

Reconstituição em que o agitador se desdobra numa riqueza de fantasia e num estilo que era o segredo da sua fascinação.

Oiçamo-lo: “D. Maria grita aos cocheiros que faziam voar a sua carruagem: “Mais devagar ! diriam que fugimos”!  A sua loucura proferia com juízo brados de desespero, altos gritos de raiva, entorcendo-se, debatendo-se, às punhadas, com os olhos vermelhos de sangue, a boca cheia de espuma. O protesto da louca era o único vislumbre de vida. O brio, a força, a dignidade portuguesa acabam assim nos lábios ardentes de uma rainha doida”. (2) Eis como se faz história ! Não há dúvida que o leitor menos avisado e de certo já trabalhado por esses atraentes panfletários concluirá, com um julgamento simplista, vendo naquela medida uma conseqüência da indignação da monarquia ante a invasão, uma retirada ditada pelo medo e pela covardia.

Mesmo em nossos dias quando tanto documento esclarecedor veio à baila, quando tanta correspondência ostensiva ou secreta, que estava perdido nos arquivos, foi tornada pública, quando enfim tanta luz se fez sobre o assunto, perdura para muitos uma atitude de cega teimosia em julgar o acontecimento pela mesma maneira como o julgaram os rancorosos liberais do século (XIX) passado. Nesse sentido para muitos não houve progresso nenhum. A questão permanece no mesmo pé em que a deixou o torturado O. Martins. Ora, está sobejamente provado que a emigração para o Brasil era um pensamento antigo da monarquia portugueses – anterior aos Bragança, constituindo uma espécie de herança política que D. João VI realizou. Velho testamento político que somente agora encontrava executor embora o fizesse por imperiosas circunstâncias do momento.

A antigüidade desse testamento político é um ponto incontrovertido – embora nem sempre conhecido. Façamos um pouco de história em torno da sua evolução. Não nos propomos a descobrir novos documentos nem a dizer novidades. O que vamos lembrar é velho de muitos séculos e anda repetido em muitos autores.

O primeiro vestígio dessa transplantação para o novo mundo vamos encontrar no século XVI. A respeito desse início diz sucintamente Calégeras que meiada aquela centúria, aí por volta de 1550. “Martin Afonso de Souza aconselhara a D. João III assim proceder” (3) Não ajunta nenhum pormenor a respeito daquele conselho. Antes porém escreveu que “em si nenhuma novidade era para Portugal a idéia da transferência para o Brasil da sede da administração pública”. (4) Não nos foi possível encontrar dados que nos esclarecessem acerca dos motivos que levaram Martim Afonso de Sousa – um grande experimentado em assuntos coloniais – a dar  aquele conselho e tampouco como o recebeu o Piedoso – esse grande Rei colonizador e o primeiro que sentiu a importância real da América portuguesa em contraposição às riquezas fáceis, miríficas das Índias. Não quisemos também descer a pesquisas minuciosas porque se encontram depois novos vestígios de plano. Assim é que ao tempo do malogrado Prior do Crato o Brasil foi lembrado como retiro seguro e um provável centro de reação. Disso nos dá notícia Melo Morais lembrando que D. Pedro da Cunha, a quem fora confiada a guarda de Lisboa por D. Sebastião – “ aconselhara ao D. António, prior do Crato, que não tendo S. Alteza, mais do que os aguadeiros de Lisboa, para defender os seus direitos, ao passo que o Duque d’Alva entrava em Portugal com um exército de 24.000 homens, o que tinha que fazer era passar-se com os seus para o Brasil, onde podia salvar a sua dinastia e fundar o maior império do mundo”. (5) Esse era o pensamento, cheio de bom senso, dum velho e experimentado homem público. Desgraçadamente o Prior não o quis seguir. Todos sabemos qual o seu triste fim e como Portugal perdeu então a sua independência – desgraça que se repetiria em 1807 se D. João em idêntica circunstância não procede-se de maneira diversa!

Mas, a antigüidade do plano não pára aqui.

Outra vez acompanhemos a sugestão de Calógeras.

É ele ainda quem nos esclarece lembrando que o manhoso e muito hábil Felipe II – aquele astuto demônio do meio-dia – tentou afastar da questão portuguesa um adversário, que tinha fundados direitos, acenando-lhe com a possessão americana. Esse adversário era D. Catarina, duquesa de Bragança, a parenta do falecido Cardeal-Rei D. Henrique, a primeira da ordem da sua sucessão. “ O soberano espanhol tentou convencê-la escreve Calógeras – a propiciá-la pela oferta de elevar o Brasil a reino independente sobre o qual assentaria seu trono”(6). Aliás – diga-se aqui, somente de passagem, a Espanha também nunca foi estranha a essa possibilidade de emigração total ou parcial da sua própria realeza para a América.

Onde porém o projeto se apresenta mais definido e esteve a ponto de realizar-se é ao tempo de D. João IV – a quando da Restauração de 1640. É então que se pensa seriamente naquilo que Handelmann chamaria depois o “testamento político” de D. João IV.(7) Nos primeiros anos da Restauração e independência política portuguesa era toda incerta, podendo a qualquer momento vir a ser uma simples aspiração nacional pois que a Espanha vivia a lhe rondar as fronteiras, sempre em pé de guerra, como que disposta a tomar uma sangrenta desforra contra a inesperada reação comandada pelo Duque de Bragança. A monarquia bragantina tinha o se destino condicionado pela independência política de Portugal e assentava-se na dualidade peninsular. E nesses primeiros tempos era sobremaneira periclitante a existência de ambas, face ao poder de Castela. Aos homens públicos de então – como aos de 1807 – se afigurou indispensável procurar um retiro seguro onde, embora exilada da metrópole, pudesse a monarquia prosseguir livremente no seu exercício possibilitando depois uma reação organizada. No caso de verificar-se uma invasão, a Monarquia retirava-se para uma parte do Império e lá organizava o movimento de libertação , congregando como um núcleo central os elementos dispersos pelo invasor.  De qualquer maneira salvava-se o princípio dinástico – a realeza continuava independente. O plano não deixa de ser o de uma política inteligente. Começou-se então a pensar seriamente na América Portuguesa. O Brasil passou a ter uma importância especial. Iniciou-se uma política de valorização americana. A colônia do novo-mundo entrou a ser considerada como capaz de abrigar seguramente o princípio dinástico. Já em 1642 organizou-se o Conselho Ultramarino – de atribuições amplas e de profunda significação para a vida administrativa do Brasil Colônia – merecendo que Haldelmenn o classificasse como um “ministério das colônias”. Isso era sinal evidente da nova política americana da Cada de Bragança. Mas, D. João IV não ficou somente nisso. Exaltou o Brasil com o predicamento de principado fazendo-o apanágio do Príncipe Herdeiro. Desde 1645 o herdeiro da Coroa, passou a usar um título que define uma política – Príncipe do Brasil. São de Melo de Morais as conscenciosas palavras que se seguem: “Aquele previdente monarca D. João IV considerando, em vista compreensiva, a instabilidade do original do reino de Portugal, pela estreiteza do território, inimizade de Espanha, desarmonia de potências preponderantes da Europa, persuadido que a segurança de coroa e dinastia, unicamente se poderia achar no criado principado ultramarino, tendo aí residência a família real, fez um roteiro, para a execução do projeto, que concebeu do trespasse da corte portuguesa para Pernambuco: que então pela natural fortificação do Recife parecia ser a central estância marítima mais adequada ao destino, por até ser havida na Europa como a Rochella da América”(8). Aliás Melo Morais cita em abono das suas afirmações uma carta de Pe. Vieira – a cujo tino político e sagacidade parece se dever a sugestão desse plano a D. João IV – que documenta concretamente este ponto. Leiamos o que diz o grande político: “ Lembra- me agora de quando a rainha-mãe, por conselho dos condes de Cathanhede e Soure, enviou a V. S. não só a governar Pernambuco, mas também, para prevenir a seus filhos, uma retirada segura, no caso em que alguns sucessos adversos, que então muito de temiam, necessitasse este último remédio e também V. S. estará lembrado de que S. M., que me mandara passar do Maranhão, onde estava, para assistir a V. S. e se seguir o roteiro que el-rei, que Deus tem, tinha prevenido, como tão prudente, para o caso de semelhante tempestade e, se achou depois da sua morte, em uma gaveta secreta rubricado de sua real mão, com três cruzes …”(9).  Há, informações seguras de que a Rainha D. Luiza de Gusmão era também uma partidária dessa emigração, advogando-a sempre com firmeza e veemência como uma medida prudente e de grandes conseqüências. Não parece igualmente destituído de fundamento o projeto de D. João IV de casar o Príncipe do Brasil com uma princesa da casa de França afim de que este, naturalmente com o prestigio da aliança francesa para conservar à distancia a Espanha, reinasse em Portugal, enquanto ele, D. João, fundaria no Brasil um novo reino (10).

Seria um lapso lamentável se nesse breve esforço, mero trabalho de coordenação, deixássemos sem uma referência especialíssima a memória escrita por D. Luiz da Cunha – o maior diplomata do seu tempo como lhe chamou Handelmann a propósito duma possível transladação da realeza para o Brasil. O neto daquele que aconselhara o prior do Crato continuava o mesmo pensamento político de seu avoengo. O eminente diplomata declara em seu escrito  “ que durante a guerra geral, que principiou em 1700 e acabou treze anos depois, com maiores ou menores interrupções, ele também pensara, que era chegada a ocasião de passar a família real para o Brasil” (11). D. Luiz da Cunha via no Brasil não somente o momentâneo abrigo da Realeza enquanto lá na Europa as coisas se arranjavam – como uma colônia cujas largas possibilidades de desenvolvimento e grandeza poderiam assegurar à Casa de Bragança um esplendor novo. Diz o venerando autor da “História da Fundação do Império do Brasileiro” que aquele estadista julgava que “a monarquia portuguesa ganharia no mundo posição mais elevada e venturosa estabelecendo-se no Brasil”(12).

E por isso era ele partidário de que ao Brasil se deviam cuidados especiais e que merecia umas prerrogativas verdadeiramente revolucionárias para a administração do tempo. E chegou mesmo, na sua mencionada memória, a sugerir a Diogo de Mendonça – que aconselhasse el-rei a consentir “ que os estrangeiros vão residir no Brasil e nele vivam e exerçam as artes, e as ciências, porque com isto muito ganhará a coroa de Portugal”(13). D. Luiz da Cunha teve nessa questão – desprezado o quociente de imaginação e de fantasia do qual raramente escapam os projetos, elaborados num puro teorismo de gabinete – uma profética intuição da futura importância do Brasil, do relevante papel que o reino americano iria desempenhar em relação ao salvamento da soberania metropolitana. De certo modo foi ele o profeta do reinado brasileira de D. João VI.

Nós pararíamos aqui se não devêssemos ajuntar que ao tempo de D. José o seu ministro Pombal cogitou em aproveitar essa velha sugestão duma sede americana para a administração do Reino. O Ministro chegou a Ter uma esquadra preparada para atender aquele fascinante chamamento feito havia muito por um mundo cheio de maravilhas e riquezas. Ainda uma vez as circunstancias não foram de tal maneira imperiosas que forçassem a execução do plano. Essa medida era lembrada sempre que um perigo sério ameaçava a independência, nunca fora antes posta em prática porque os males tinham sido conjurados. (14)

A D. João VI, iria caber a tarefa a um tempo ingrata e delicada, mas única no seu momento, de realizar essa política histórica. Até aqui demonstrávamos a anterioridade da medida posta em prática por D. João VI acompanhando um projeto que datando de D. João III passou pelo Prior do Crato, D. João IV, Afonso V, D. João V, D. José I, sempre lembrado por estadistas e ministros como D. Luiz da Cunha, Vieira, Pombal, Gusmão, etc. Sobejamente ficou demonstrado que o Clemente não descobriu nenhuma novidade retirando-se para o Brasil. Façamos ainda todavia uma ligeira resenha da evolução desse plano no tempo de Clemente. Antes de 1807 já se pensara numa solução para a circunstância de se verificar uma invasão francesa em Portugal dia a dia mais iminente. Sempre conjurada nunca porém afastada de vez.

Caberiam aqui, algumas indagações para determinação das causas que moviam a corte portuguesa a alimentar, durante centúrias esse projeto. Não era somente o fascínio dum mondo novo, o gosto, nunca desprezado pela alma portuguesa, para uma aventura sensacional. Sem dúvida esse encantamento pela jovem América influía no ânimo dos que elaboravam o plano. Mas, houve acima de tudo isto, e como causa realmente determinante, uma fria e seca razão de estado, um motivo político ditado pelo bom senso realista dos homens públicos. Portugal vivia na Europa, e vive ainda hoje, como que sufocado e sobremaneira vulnerável e muito disputado pelas grandes potências como ponto de apoio. Dotado de ampla costa marítima oferece por isso mesmo uma grande dificuldade de se defender pelo lado do mar e daí um dos motivos de sua aliança inglesa que pelo menos mantém a esquadra britânica à distancia.

Por terra havia quotidianamente, o perigo castelhano acrescido pelas variações da política francesa que ora se inclinava para um ora para outro não oferecendo portanto segurança a sua amizade. Sufocado é bem a palavra porque por terra e por mar havia um constante perigo. Daí Portugal Ter vivido sempre com um pé a bordo e outro em terra. E não terá essa sua delicada posição influído profundamente na sua vocação marítima levando-o a procurar novas rotas e mundos novos que lhe permitissem um desafogo? Que lhe permitissem recursos para resistir às complicações duma política exclusivamente européia? A resposta não é difícil.

Quando veio o Império Colonial maiores foram os motivos que levaram a Realeza, pelo pensamento de vários estadistas, a cogitar num deslocamento de centro administrativo, na transferencia da metrópole. Esses motivos se cifram na necessidade duma metrópole, mais central, mais próxima do Império, mais ao alcance de todas as rotas marítimas. Era a necessidade de administrar de perto, diretamente – como que uma medida preventiva, para a conservação do Império. E mesmo uma sã política de desenvolver e engrandecer os domínios ultramarinos.

Constitui esse projeto um pensamento comum a estadistas de épocas diferentes. Constitui uma espécie de constante na política portuguesa.

Aliás a idéia duma emigração da Realeza não era exclusiva de Portugal. O Gabinete de Madrid pensou em hipótese semelhante em diversas ocasiões quando então as circunstâncias lhe indicavam essa solução como a mais apropriada. Lembremos só que Vauban chegou a sugerir tal saída a Felipe V quando este “perseguido pela Inglaterra, Holanda, Áustria e Portugal cogitava igualmente de abandonar Madrid e refugiar-se na colônia onde fora outrora o Império dos Incas” (15). Houve mesmo quem lhe augurasse então que dentro de 10 anos poderia voltar poderoso, e forte “para conquistar a Espanha com tesouros do México”(16). O Conde de Aranda, embaixador de Madrid, junto ao Rei Cristianíssimo tinha ainda planos maiores, mais vastos. De tal maneira grandiosos que ele próprio os classificou de sonho (17). Refere Porto Seguro que aquele titular “meditava não só um plano de independência do Brasil todo, instituindo nele uma monarquia regida pela Casa de Bragança, como até do engrandecimento de uma tal monarquia, inclusivamente até as beiras do Pacífico, unindo-lhe o Peru e o Chile, uma vez que a família de Bragança abdicasse os seus direitos às províncias continentais européias de Portugal e que estas se agregassem à Espanha”(18). Aranda chegou mesmo a dar conhecimento desse seu projeto em uma carta memorável ao ministro Flórida Branca que então dirigia o gabinete madrileno. Esse curioso documento traz a data de 1786 (19). Naturalmente vamos convir que o assunto comporta ainda um largo desenvolvimento que não podemos lhe dispensar aqui.

Esse era o estado da questão antes de D. João. Examinemo-la agora ao seu tempo. A emigração deixa de ser apenas um pensamento político de estadistas – é já um tema ventilado por representantes de diferentes classes. Articulistas, literatos, jornalistas, juristas e muitos outros dizem também a sua palavra sobre o tema. Ainda em 1789 o Ideiador traz estampado – sob o pseudônimo dum articulista desconhecido, “um vasto plano para o aumento e prosperidade do Brasil, por meio da transferência a ele da corte portuguesa”(20). O plano se desenvolve em sugestões de caráter prático não desprovido de um conhecimento apreciável da questão. Essas idéias começam a ter uma maior difusão, generalizam-se por entre as mais variadas esferas da administração, das classes. Tornam-se o pensamento de muitos membros do gabinete, da nobreza. Acentua um historiador que “na corte de Lisboa homens leais e pensadores, pelos conhecimentos que adquiriam do continente brasileiro, olharam o Brasil, não como um território de especulação mercantil, porém como a tábua de salvação da monarquia portuguesa”(21). Essa era a orientação de Tomás António Vilanova Portugal, de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a cujo parecer sobre o assunto faremos alusão depois. Muito antes da situação angustiante de 1807 – expressava o Marquês de Alorna em uma carta dirigida ao Príncipe Regente o seu parecer a respeito da maneira de conseguir a Dinastia escapar à crescente ameaça francesa e à pressão britânica. Claramente lança a sugestão: “o que é preciso é que V. ª R. continue a reinar e que não suceda à sua coroa o que sucede à da Sardenha, à de Nápoles … e então V. ª R. parte com toda a sua família para o Brasil”(22). Á medida que as exigências francesas cresciam, mais e mais o plano se afigurava como a única solução prudente. O que aliás era absolutamente contrário aos projetos da política napoleônica que até à última hora tentou evitar a sua execução. De início esteve quase a viajar o Príncipe herdeiro o qual viria ao Brasil com o título de Condestável, e numeroso séquito e alguma tropa. O Príncipe Regente chegou mesmo a fazer uma proclamação aos brasileiros concitando-os a receber o Príncipe como seu Condestável. O representante inglês também partilhava dessa opinião fazendo em nome do seu governo constantes sugestões.

Tudo isso era posto de lado logo que a crise diminuía de intensidade. Essa procrastinação deve-se não só ao temperamento do Regente – cujo lema era protelar, adiar, esperar, até que a coisa não tivesse outro jeito – como às surdas intrigas que na sombra se urdiam com fins verdadeiramente diabólicos.

Todavia o gabinete não abandonava a sua orientação e tenazmente prosseguia na sua execução. Tomás António Vilanova – grande conhecedor do caráter do Regente e do que na sombra se tramava – inteligentemente ia realizando aqui uma política manhosa, mas, de alta eficiência: que se prosseguisse no empenho da jornada do Príncipe da Beira, que tinha muito séquito e cujos obstáculos não eram invencíveis, que no outro projeto de ir o príncipe regente, se não devia falar, para que não levantassem contradições, que o fizessem impossível, que com este se faziam todas as disposições, que eram necessárias, se familiarizavam os príncipes com a idéia de uma viagem, não se atemorizava o povo, e quando chegasse o momento crítico, não achava embaraços o embarque de todos”(23). Tudo isso demonstrava sobradamente a antigüidade do projeto. Estudemos agora sucintamente as causas determinantes da sua execução, aparentemente apressada em 1807. São correntes e bem conhecidos os apuros em que ficou Portugal quando a Espanha por causa de quem ele se metera em guerra com a França – fez uma paz em separado com o governo revolucionário francês sem ao menos se dignar disto dar noticia previamente ao seu aliado. Começa para Portugal uma verdadeira via crucis. Dia a dia a França do 1º cônsul e logo mais Imperador – faz exigências descabidas, tem pretensões impossíveis de satisfazer, exerce em suma uma pressão incompatível com a soberania e a independência portuguesa. Assinam-se tratados que o governo francês se recusa a cumprir, pactua-se subvenções extorquidas ao Erário Régio, nada porém detém a ganância jacobina nem o imperialismo napoleônico. É uma página turva essa. Portugal, melhor D. João e o seu gabinete preferem usar uma tática de manha, de astúcia, de procrastinação contra o adversário inesgotável em exigências e arrogante porque se apoia em legiões de vencedores. Distribuem-se diamantes do Brasil, fazem-se presentes, pagam-se milhares de libras tornezas – numa palavra o erário real transferia-se para os bolsos do Imperador e dos intermediários. Foi um verdadeiro saque. A tudo D. João cede disposto a comprar uma paz sempre mais cara e mais pesada. A cada presente dado a cada consciência comprada, a cada subvenção extorquida corresponde uma nova exigência, uma pressão, ainda maior.  D. João porém preferia praticar o dito de Pombal de que vale mais e custa menos fazer a guerra com dinheiro do que com exércitos. Os últimos embaixadores franceses em Lisboa foram uns verdadeiros procônsules. Verdadeiros salteadores. Cometeram as mais descaradas violações de soberania portuguesa escudados em imunidades diplomáticas – numa palavra comportaram-se como autênticos sargentões travestidos de embaixadores. Enquanto isso os diamantes do Brasil, as libras tornezas, o oiro do erário régio corriam à larga. D. João de ordinário tão econômico e tão comedido em gastos não poupou nada para ver se aplacava a fúria napoleônica. Tudo inútil. Napoleão resolvera que a Cada de Bragança cessara de reinar (24). Decididamente os teimosos Braganças eram um estorvo para seus planos. De fato a conquista de Portugal valia por uma questão de interesse vital para o Império Napoleônico. Portugal exercia o papel de verdadeira chave dum grave problema. Todas as suas promessas, todos os seus esforços em impedir a retirada para o Brasil tinham caráter apenas de uma medida provisória, à espera da hora própria para aprisionar os Braganças e reduzir Portugal a uma posse comum a vários senhores. D. João viu-se em terríveis aperturas. Fez o que pode, vamos convir, foi mesmo além do que devia em matéria de concessões. Asperamente escreveu Pinheiro Chagas que “para obter melhores condições o governo português roja-se aos pés do General Lannes. Não há insolências que se lhe não façam”(25). Mesmo assim ainda mantinha o governo francês as mais enganosas relações com Portugal e já fora assinado o tratado secreto de Tilsit em cujo texto se incluíra uma cláusula segundo a qual ficava assegurada ao Imperador a faculdade de assenhorar-se de Portugal e de destronar os Braganças. essa política realmente indigna continua até mesmo depois do tratado de Fontainebleau – quando estão retalharam a antiga Lusitânia em tantas partes quantas bastassem para saciar a cobiça dos válidos, dos protegidos e o incontido imperialismo de Bonaparte coroado. As exigências mais duras foram formuladas. O bloqueio continental fora decretado. Napoleão pretende reduzir a Inglaterra àquelas condições geográficas em que Deus a criara … uma simples insula … Todos haviam aderido, somente D. João mantinha os seus portos abertos aos aliados britânicos. Isso sobremaneira irritava a Napoleão. Na grande luta entre os dois colossos Portugal significava uma aliança indispensável. “Portugal – escreve J. Amaral – representava nesse duelo de gigantes, uma pedra de valor, pelo seu extenso litoral, cheio de portos de abrigo virados ao Atlântico” (26). Os Braganças porém fiéis à aliança inglesa não queriam completar o bloqueio. Vieram condições drásticas e peremptórias: fechamento dos portos, confisco de propriedades de súditos britânicos, rotura de relações – do contrário o Império reduziria o tergiversante gabinete lisboeta à discreção. Talharia o reino à espada, reduziria tudo a escombros. E mesmo que essas imperiosas exigências fossem satisfeitas a invasão viria porque os Braganças significavam um incômodo, um estorvo para os delírios do Corso que então mandava na Europa. E por sua vez a Inglaterra pôs-se de sobreaviso e mandou uma esquadra fazer cruzeiros de instrução em frente ao Tejo. A que realmente vinha a esquadra bem sabia D. João – caso esmorecesse na fidelidade à aliança inglesa. Houve ainda umas tentativas da sua manhosa política. Fechamento só na aparência – confisco indenizado secretamente, cidadania aos súditos ingleses, mascarava-se a coisa para deter a França. Isso já não bastava e por fim ninguém se entendeu mais. A França descobriu completamente o desonesto jogo de Napoleão fazendo estampar no “ Moniteur” o tratado de Fontainebleau e o decreto de extinção da Casa de Bragança. Por seu turno a Inglaterra perdeu a paciência, entrando a fazer exigências e mostrando quão egoísta é a sua política quando os seus interesses estão ameaçados. A Inglaterra queria responder ao bloqueio continental com a supremacia dos mares. O Imperador era senhor em terra – no mar mandava ela. Para tanto precisava de uns portos de apoio no continente – uns portos chaves como Copenhague, Lisboa. O primeiro ela conquistara – depois dum terrível bombardeio – violentando a sua neutralidade. O outro sofreria igual violência si não se comportasse melhor. Para a Inglaterra era vital igualmente essa supremacia nos mares. As ameaças inglesas assumiram um caráter tal que não ficava atrás dos franceses, qualquer invasão em Portugal a Inglaterra responderia com outra nas suas colônias, a começar pelo Brasil. Leiamos alguns trechos dum memorável discurso que o ministro Mr. Pitt pronunciou no Parlamento inglês acerca dessa palpitante questão: “Logo que todas as potências coligadas com a França, brigam com a Inglaterra, a Inglaterra restam-lhes recursos certíssimos, colocar o príncipe do Brasil no seu trono na América e quando ele ignorante dos seus verdadeiros interesses, ou corrompido pelas proposições pacíficas da França não anuía às proposições da Grã Bretanha, esta faz dois desembarques ou invasões súbitas naquela península, uma no Brasil, outra no Pará, uma na parte do nascente outra da parte do poente naquele lugar mais oportuno para a manutenção do trono”(27). E tais ameaças não eram difíceis de realizar por falta de conhecimento do terreno. Tudo havia sido estudado com minúcia e cuidado. O próprio Mr. Pitt confessa: “muito de antemão e com muito vagar tem a Grã Bretanha feito considerar com precisão e minúcia, assim matemática, como politicamente todo aquele país ou região chamado América Meridional”(28). E desse modo já não havia “costas, enseadas e ancoradouros, bancos, parceis, baixas, portos, praias e rios … cachopo, pesqueiro ou desembarcadouro, por pequeno e desprezível que seja ou pareça que não se ache calculado e descrito no mapa com a maior clareza e precisão geométrica”(29). Não se pode ser mais claro e mais explícito. E para que não ficasse nenhuma dúvida se a Inglaterra seria capaz de levar a termo essas ameaças contra o seu aliado, proclama enfaticamente Mr. Pitt que “a nação britânica não acha dificuldades, quando vê que é preciso fazer grandes coisas; e por isso mesmo que é ação façanhosa é digna dos ingleses”(30). Esse o pensamento do gabinete inglês.

A respeito das intenções britânicas fala Oliveira Lima documentado nas insuspeitas memórias de Sydney Smith. “ O almirante é o primeiro a reconhecer que essas colônias estariam de fato perdidas para a metrópole se D. João não emigrasse para o Brasil. Os ingleses ocupa-las-iam sob pretexto de se defender (31). Araújo – o chefe do partido francês não só levantou a suspeita de que o aliado do Mancha seria bem capaz de atacar Lisboa como foi mais longe manifestando o seu pensamento em carta ao secretário do P. Regente dizendo: “Lembro que será necessário ordenar que se ponha a ilha de Sta. Catarina em estado de defeza com artilharia que pode mandar de onde for menos precisa, e com alguma tropa, porque os ingleses podem ter a cobiça naquela chave do Brasil e quererem apoderar-se dela declarando que não farão hostilidades aos portos do Brasil”(32).

Esse ponto da questão julgamos incontrovertido. Ninguém põe mais em duvida que “Inglaterra executaria as suas ameaças (33). Basta lembrar que ela se apoderou da ilha da Madeira sem grandes escrúpulos. E para a sua devolução houve trabalho … No fundo havia razão para essa fria política inglesa – na guerra não se deve poupar o inimigo. Seria realmente uma enorme dificuldade para a Inglaterra se o Imperador dispusesse do Império Colonial Português – Não só p comércio se arruinaria como o imperialismo napoleônico ia se apoiar em sólidas bases navais e militares. O gabinete de St. James via todos esses perigos e não perdeu tempo com pactos tratados e alianças. Entrou a falar claro para o governo de Lisboa. Por outro lado os ingleses não queriam de maneira alguma que a esquadra portuguesa viesse a  cair nas mãos do Imperador. Com realismo frio e sem sentimentalismo pôs o gabinete lisboeta entre a espada e a parede: ou utiliza afim de retirar-se para o Brasil – e de lá uma eventual reação, ou aguardar que a Europa serene,- ou então entrega imediata dela ao governo inglês – com ou sem indenização. E note-se essas propostas eram secundadas pelas baterias britânicas que bordejavam à vista da cidade. Sucintamente escreve Tobias Monteiro: “a esquadra inglesa fundeada no Tejo podia Ter uma dupla ação”(34). O mesmo autor faz referências às “instruções dadas por Fox ao embaixador lorde Rosslyn e ao almirante, lorde Sr. Vincent” a respeito da esquadra portuguesa e das conseqüência que poderiam surgir duma recusa (35). Em uma nota ameaçadora e arrogante ao gabinete de Lisboa – Strangford, depois de lembrar o acontecido ao porto de Copenhague, disse “francamente e sem rodeios que S. M. nunca permitiria que um vaso dos seus aliados passasse às mãos de seus inimigos … Também S. M. B. nunca consentiria que as forças navais das potências neutras engrossassem as forças dos seus inimigos”(36). Isso se chamava fazer diplomacia às claras … Vamos convir que não eram menos delicadas as relações com o aliado inglês. Tornara-se impossível a D. João repudiar a aliança britânica naquela hora terrível. Não só por motivos militares – impossibilidade material de resistir aos ataques dos seus navios, ameaças às colônias, como por motivos econômicos. Mesmo não era decente para um príncipe leal e católico romper de repente velhos laços de amizade, confiscar propriedades de indefesos súditos ingleses, fechar os seus portos, atirar-se enfim aos braços dos franceses. De tudo isto nos dá boa conta D. Rodrigo de Souza Coutinho em seu “parecer ou voto de 21-8-1807”. A demonstração “que V. A . Real vai dar a toda a Europa da sua incomparável magnanimidade da invariabilidade dos seus princípios de justiça e da sua exemplar firmeza, expondo-se a experimentar as calamidades de que o ameaçam antes do que violar tão escandalosamente os deveres da justiça e de religião e é esta augustíssimo senhor, uma das mais admiráveis provas do paternal amor que V. A . Real tem dado aos seus fiéis vassalos”. E aqui o futuro Linhares avança numa afirmativa cheia de realismo político, lembrando que tal demonstração não era somente honrosa como muito prática “porque sustentando V. A . Real assim a reputação de fidelidade portuguesa, os preserva (aos seus fiéis vassalos) das cruéis e destrutivas represálias que os ingleses não poderão deixar de praticar contra nós e nossos cabedais”. O parecer de D. Rodrigo prossegue ainda lucidamente descrevendo inconvenientes outros da ruptura com os ingleses. “Mas serão constantes – Augustíssimo Senhor os terríveis golpes que vamos dar ao nosso comércio pela clausura dos nossos portos e escassez de gêneros de primeira necessidade que vamos experimentar por tal fato, o retardo da correspondência com as colônias de V. A . R. a baixa que deve sofrer o nosso papel moeda, e as conseqüências que disso devem necessariamente realizar, ainda quando a guerra com a Grã-Bretanha não seja mais do que de aparência”(37). Reconheçamos que a situação do gabinete de Lisboa era naquele momento a mais angustiosa possível. Tinha que optar por uma solução e qualquer delas implicava sacrificar ou o reino europeu ou o império ultramarino – aquele temporariamente o outro definitivamente. Entre as solicitações inglesas – mais práticas embora um tanto egoístas – e as francesas – arrogantes e prementes, insaciáveis como todas aquelas que são ditadas pelo imperialismo ideológico – o gabinete oscilava indeciso. De ambas havia partidários exaltados. Escolher em meio de tanta cisão e de interesses tão contraditórios, eis a torturante missão do Regente. João Amaral formula essa pergunta difícil de responder: “Que há de fazer Portugal ? Entre o poderoso aliado britânico, senhor dos caminhos marítimos e a fôrça da França – força militar e força de expansão ideológica – debatemo-nos angustiados”(38). Os próprios historiadores liberais reconhecem quão perigoso era aquele momento. Oliveira Martins escreve: “ A França exigia dele que declarasse guerra à Inglaterra dentro do prazo de vinte dias, que fechasse os portos aos navios ingleses anuindo ao bloqueio continental, que juntasse os seus navios às esquadras combinadas franco-espanholas, que seqüestrasse todas as propriedades inglesas e prendesse todos os súditos britânicos . como havia o príncipe regente de anuir a isto, se por seu lado o inglês para o proteger, guardava a costa com uma esquadra? Mas como podia lançar-se-lhe nos braços, se a Inglaterra declarava que a invasão de Portugal pela França, responderia a ocupação do Brasil pelas forças britânicas? Quando o seu defensor afirmava que saquearia para o defender, como havia o Príncipe Regente aceitar o auxilio oferecido?(39).

Há ainda uma solução: conservar a aliança inglesa recusando ceder às exigências napoleônicas e resistir à invasão, dando mais uma vez um atestado do valor português. Não sabemos porém se mesmo assim o império colonial salvar-se-ia das pretensões inglesas. Muitos reputam a desistência de lutar, o receber a invasão sem uma reação armada a maior vergonha da história portuguesa (40). É tão fácil fazer a história com eloquência embora seja ou não verdadeira. Panfleto, guerra civil isso sim, história escrupulosa isso não. Lembram muitos o estado miserável das tropas francesas entradas em Lisboa sob o comando de Junot. Parecia mais um bando armado de famintos e maltrapilhos. Realmente as tropas de Junot chegaram pessimamente equipadas e em míseras condições.

Não teria sido muito difícil a sua expulsão, ou pelo menos detê-las, com um bom corpo de tropas portuguesas. Mas a coisa não se cifra somente nessa solução simplista, e rápida. Antes de mais nada é preciso não esquecer a influência sombria das intrigas que tudo ocultaram até o último momento e o papel preponderante duma traição sem nome como outra maior não registra a história portuguesa. Não esqueçamos também que ao tempo Portugal dispunha de parcos meios militares para uma resistência eficiente – tão esgotado saíra das últimas campanhas. Revelou-se igualmente que as defesas, praças de guerra, fortes e outros mais recursos estratégicos andavam descurados e pouco aptos para sustentar um assédio em regra. Ocorre além disso que as poucas tropas disponíveis foram deslocadas para a orla marítima na suposição de que o perigo estava no mar. Enquanto isso o país ficava aberto à invasão. Aqui se descobre o papel traiçoeiro do partido francês a quem se deve a criação dessa mentalidade anti-britânica – e ao qual não foi estranha essa manobra de desproteger as fronteiras e os interiores.

D. Rodrigo de Sousa Coutinho – chefe do partido inglês com quem estava o bom senso naquela hora em largos traços bosquejou no seu mencionado parecer, o estado lamentável do país para opor-se a uma invasão: “a redução das forças militares de V. A . Real, o estado indefeso das suas fronteiras, tal qual existia na última guerra, nem intimida os inimigos de V. A . Real , a falta de suficiente socorros da parte dos aliados de V. A . Real nem pode inspirar confiança de uma resistência durável, maiormente achando-se terminada a guerra no continente a havendo a França tantas forças disponíveis para subjugar Portugal e com ele a Espanha, que creio que ainda não divisa que o jogo se faz por tabela”.

Acontece ainda o seguinte: D. João podia talvez reagir com êxito naquela hora. Podia mesmo Ter expulso Junot e seus comandados. Mas, não nos esqueçamos nunca que por traz deste velava o grande exército imperial.

Por traz daqueles míseros que entravam em Lisboa estava em guarda o famosos e invencível exército do Bonaparte coroado. Rechaçado Junot, outros marechais afluiriam depois e sempre mais terríveis. O problema aqui não era vencer somente Junot. Depois dele viriam, como vieram, tropas descansadas e que já tinham batido os maiores cabos de guerra da Europa da época. Soult, Massena, um dia talariam impiediosamente o velho reino. Outros mais poderosos haviam perdido … Áustria, Rússia, Prussia …

O próprio império de Santo André não trepidara em seguir uma tática semelhante à de D. João: vencer o inimigo pelo cansaço sem oferecer nunca uma batalha decisiva … a tática de vásio, dum recuar sempre … Tática que culminou com aquele supremo logro qual o de entregar a um exército esfaimado, esgotado, fustigado por um inverno cruel, uma cidade deserta: Moscou em chamas. A tática que deu a vitória das gélidas estepes intermináveis. Se assim procedia uma grande potência que desaire havia para Portugal em oferecer a mesma estratégia do vazio, do recuo? A conquista de Portugal estava decidida – era um plano do Imperador. Ela tinha que ser feita embora fosse necessário ocupar todo o grande exército para subjugar aquele reinosinho renitente. Aqui se tratava duma conquista também ideológica. Era necessário destruir os velhos tronos europeus, matar os velhos reis o princípio tradicional das monarquias anti-revolucionárias, sufocar as velhas realezas do direito divino, acabar com os Reis pela graça de Deus. Era a luta ideológica entre a Realeza legítima e a usurpada, a napoleônica. Entre a Tradição e a Revolução. Bonaparte precisava ter em Lisboa o mesmo que em outras capitais européias, um simulacro de monarquia, um irmão, um protegido, um sargentão qualquer feito rei. Por isso a conquista de Portugal era passo decidido, tinha que ser feita. D. João reconheceu publicamente que as tropas marchavam especialmente contra sua pessoa. Visavam a ele (41). De fato Junot em sua proclamação ao entrar em Lisboa deixou perceber esse seu primordial intento (42).

D. João a despeito de todas as oscilações, de todas as dúvidas, de todas as traições e pérfidas, no fundo viu sempre com bom senso qual o caminho a seguir. No fundo ele pensou sempre no antigo plano que formava uma herança histórica da política de sua Casa. Aguardava porém um momento oportuno oferecendo por sua vez uma reserva que desconcertou os traidores e por fim lhes inutilizou os danados intentos. Desde outubro fora assinada com a Inglaterra uma convenção secreta acerca da trasladação eventual da Casa de Bragança para o Brasil. Em novembro essa convenção foi ratificada sob o maior sigilo. E por isso é que Strangford mesmo depois de toda aquela encenação de pedido de passaportes, retirada de insígnias da fachada da embaixada, embarque num navio da esquadra da embaixada etc. etc. não desanimou nunca de realizar as diretrizes do gabinete inglês a esse respeito. É o próprio Stangforf quem afirma isso num oficio.

Certo é que a crise atingiu o seu clímax. Portugal achava-se virtualmente entre dois inimigos, um já cruzara a fronteira e avançava a passos largos, com promessas enganosas para deter o Príncipe Regente realizando o sombrio plano de aprisionamento da dinastia portuguesa. O outro bordejava nas suas costa podendo dum momento para o outro operar um desembarque ou proteger a retirada na hipótese do gabinete lisboeta aquiescer às suas propostas. Chegara o minuto decisivo. Impossível a resistência, imprudente uma guerra com a Inglaterra. Lucidamente escreveu Handelmann: “assim não restava escolha chegava o memento em que a casa real de Bragança tinha que pensar no testamento político de seus antepassado D. João IV e obedecer-lhe”(43). D. João Príncipe Regente, ia por em prática aquele secular projeto. Ia assumir a responsabilidade da sua materialização e correr os riscos.

Aqui cabem ainda algumas observações acerca daquela traição aludida por Caning e que o Correio Brasiliense denunciou com todas as letras.

Não nos é dado dizer nenhuma novidade nem dar ao assunto o desenvolvimento a que ele tem direito pela sua complexidade e pelo esclarecimento que isto traz.

Já o mestre Sardinha sobejamente estudou esse pormenor da retirada para o Brasil.

Basta lembrar a atuação antipatriótica do partido francês dirigido por António Araújo, ministro de Estado e francofilo exagerado. Esse partido preconizou sempre a aquiescência às exigências francesas e o empenho que até a última demonstrou em que o Príncipe Regente mão se retirasse do país sonegando-lhe mesmo as noticias mais graves como as de se encontrar Junot já em território português. São evidentes as ligações de futuro Conde da Barca com Junot. A correspondência deste último – enfeixada no seu copiador – demonstra à sociedade as suas manobras em comum. São demasiadas escusas aquelas manobras do misterioso Hermann junto a Araújo. Hermann chegou apressadamente a Lisboa para dissuadir o Regente de qualquer viagem. Felizmente nada se conseguiu. Não soam bem, ou, pelo menos não são muito claras aquelas palavras de Araújo a Herman “ que tout etait perdu “ (44). Não deixa também de ser inexplicável a atitude dos embaixadores portugueses em Paris e Madride. Ambos, D. Lourenço de Lima e o Conde da Ega apareceram intempestivamente em Lisboa sem autorização para se afastarem dos seus postos e sem terem sido chamados. Em chegando se puseram a executar uma curiosa inversão de papeis. Pareciam que os dois eram antes embaixadores daquelas potências, de tal maneira esqueceram os deveres mais rudimentares para com seu país. Disse melo Morais que ambos cuidavam mais dos interesses dos governos junto aos quais eram acreditados do que dos de seu país – “ou antes sacrificavam estes àqueles”(45). Aliás a intriga e a traição vinham de longe. Todos os que estudaram o assunto notaram as sucessivas oscilações que sofreu o projeto de embarque. Primeiro cogitou-se da viagem do Príncipe da Beira, depois da do Regente, outra vez o Príncipe da Beira, mais uma vez de toda a família, logo mais esse recurso ficava relegado para um plano do esquecimento, de mal recomendado e nada bem visto. Parece mesmo que o próprio Tomás Vila Nova andou uns dias antipatizado por causa do seu conhecido pensamento nessa matéria. Narra Melo Morais que as intrigas atingiram um extremo tal que “o príncipe regente chegou a dizer a Anadia que não cuidasse da esquadra; porém esse ministro respondeu que obedecia às ordens de S. A . Real, porém foi tão honrado, que conhecendo o estado das coisas, e as intrigas continuam nos preparativos indo ele todos os dias ao arsenal”(46). Homens como esse é que valeram D. João na hora precisa. Nada opuseram à sua vontade ostensiva, mas secretamente foram fazendo os preparativos. D. João por fim conheceu toda a trama e fez de viva voz aquela significativa recomendação ao visconde do Rio Seco (47). Não fosse o Príncipe tão decidido naqueles transes e “tout état perdu” não para Junot e sim para os meus. Aliás até à ultima hora verificaram-se impedimentos e obstáculos. O próprio Strangford no momento crítico em que a Realeza se encontrava à mercê da esquadra inglesa, meteu-se a fazer diplomacia por sua conta e a querer extorquir condições que um sisudo autor reputava de “interesseiras e insuportáveis”” (48).

O nosso objetivo reportando-nos a essas intrigas secretamente pelo partido francês é explicar porque embarque de tanta importância se resolveu em tão pouco tempo. Também aqui a história liberal andou pintando as suas … Não raro cenógrafos perdidos na história tentaram fazer do embarque uma autêntica fuga. Descrevendo grotescamente os seus pormenores apresentando a Realeza como uns manipanços que espavoridos procuravam refúgio seguro, acompanhados da nobreza acovardada, carregando para bordo jóias, dinheiro, alfaias, bens, móveis, erário público, tudo que pudesse ser carregado. Além da fuga o saque. Procedia-se a uma rigorosa limpa. O povo não sabia quem era o maior inimigo se o Bragança fujão se os franceses que traziam tão lindas promessas. Esses cenógrafos descrevem até a fúria com que o povo assistia a deserção da Realeza, vendo, impotente escaparem aqueles que com ele deviam partilhar as agruras duma invasão. Esses cenógrafos feitos historiadores são a mais daninha prega, que costuma periodicamente assaltar as funções da história honesta …

 

Não houve fuga nem afobamento. A esquadra vinha sendo preparada de longa data pois doutra maneira não se explicaria que apenas dentro de 2 ou 3 dias pudesse abrir velas. Muito menos se explica que o próprio Estado, com seus arquivos, repartições e funcionários, fosse transportado para bordo com tão poucas horas de antecedência. Naquele dia embarcou-se um Estado com todo o seu aparato. Por isso ensina Calógeras:  “que melhor prova exigir da previsão do longo preparo, e da observância das ordens mais minudentes para organizar o plano de transferencia”. Quando muito podia ser, devido à traição interna e à urgência com que se tinha de operar, “a execução deplorável de um plano político e internacional, previamente discutido e fixado, em todos os seus detalhes, após madura ponderação de todos os seus aspectos”(49). Oliveira Lima, o monumental historiador de D. João, lembra também que preparação antecipada houvera “nem de outra forma se explica que tivesse havido tempo, numa terra clássica de imprevidência e morosidade, para depois do anúncio da entrada das tropas francesas no território nacional, embarcar numa esquadra de oito naus quatro fragatas três brigue, uma escuna e quantidade de charruas e outros navios mercantes, uma corte inteira, com suas alfaias, baixelas, quadros livros e jóias … que mesmo com a maior rapidez de processos de hoje não se enfardavam e carregavam de um momento para o outro”(50). Na transmigração para o Brasil tudo estava de antemão preparado. Aguardava-se somente o momento próprio. A sua execução não era de todo desconhecida do círculo diplomático, acreditado em Lisboa (51).

Somente o decreto é que foi lavrado no dia – tudo mais só se esperava a palavra de ordem do Regente. Acontece apenas que em face da traição interna essa medida não podia ser anunciada publicamente aos quatro ventos com toda a antecedência. Na hora precisa é que ela se fez pública. A história liberal porém não quer saber da verdade. São lhe suficiente as imaginosas reconstituições que os seus cenógrafos preparam.

Há infelizmente um outro ponto não poupado pela história do partido. Segundo ela podia D. João ter apenas metido-se na esquadra e ficado a velejar à vista da costa ou quando muito ir para uma ilha próxima. Isso de correr para o Brasil era medo demasiado. Aqui tem a palavra o Sr. Luiz Soriano – que não é dos mais exaltados – “a nação inteira viu, mau grado seu, que o governo, em vez de se abrigar a qualquer ilha do Atlântico, se tinha deixado arrastar pelos insidiosos conselhos ingleses, indo transformar os sertões do Brasil em largos campos de ruína para este reino e levantar lá todo o edifício da futura independência daquele Estado” (52). A essa inábil objeção respondeu implicitamente Oliveira Lima quando escreveu: “Retirar-se o Príncipe Regente para bordo da esquadra portuguesa ou britânica e daí contemplar o desenrolar dos acontecimentos não resolveria absolutamente o problema que as circunstancias da Europa convulsa lhe tinha criado. Cada nova invasão do Reino – e foram três – daria origem a uma nova retirada, que já seria uma fuga, e entretanto o Brasil se anarquizaria, sem governo que o fosse e sem razão determinante para do seu seio brotar um governo próprio. D. João fez pois a única coisa que podia e devia fazer”(53). Ir para uma ilha também não era inteligente. Que recursos poderia lá encontrar, para uma reação? Onde os elementos para a criação dum grande império? Onde mesmo recursos para sustentar o próprio aparelho administrativo? (54) Mesmo uma ilha, Madeira ou Terceira ainda estava ao alcance dos franceses. O lugar indicado, pela sua importância crescente, pelos seus recursos naturais, pelas possibilidades que oferecia em converter-se num grande império, pela sua preponderância na economia da metrópole era sem dúvida nenhuma o Brasil. Durante as centúrias que durou a gestação do projeto, o Brasil foi sempre o lugar escolhido para abrigar qualquer emigração de pessoa real ou do próprio trono. Cada dia era mais crescente a importância da Colônia Americana e mais influente na vida portuguesa. Para isso não fique somente em palavras vamos dar alguns dados estatísticos mencionados por Pereira da Silva, que se baseou no trabalho de Adrien Balbi – (cuja documentação foi toda colhida em dados oficiais). No ano de 1806 – anterior ao de emigração – Portugal recebeu das colônias – 16.103:966$250 e enviou para elas … 11.314:313$544. Ora nessas cifras estão incluídas todas as colônias – pois bem, somente o Brasil exportou naquele ano, para a metrópole, 14.153:725$691 e importou 8.426:097$899 (55). Quanto à contribuição liquida proveniente dos impostos o Brasil batia qualquer outra província ultramarina (56). Conhece-se assim, conclui P. da Silva – a parte que cabia à possessão americana, que já ombreava com a metrópole (57). O Sr. Pedro Calmon – naquele estilo rendilhado, deliciosamente suave que lhe é tão próprio – fez sociologicamente a análise dessa incontida projeção que o Brasil aos poucos foi assumindo na metrópole chegando mesmo a se criar nela uma espécie de pensamento, de política brasileira. Antes de transcrever as palavras daquele nosso historiador  e sociólogo, lembremos o carinhoso cuidado com que o benemérito Conselho Ultramarino resolvia os problemas brasileiros e com que meticuloso exame estudava os negócios desta província do ultramar. Lembremos também como nele eram ouvidas as nossas queixas e como nele se indagavam dos nossos interesses fazendo muitas vezes subir a presença de el-rei pareceres e votos impregnados de bom senso e duma inteligente política americana, pareceres muitas vezes contra a opinião do próprio Rei e não raro contra abusos oficiais. Esse Conselho Ultramarino merece de nós a mais simpática referência e devemos sempre render-lhe pelas suas boas intenções e obras uma homenagem justiceira.

Além do Conselho dos negócios do ultramar influíram nessa orientação, nessa política brasileira da metrópole numerosos brasileiros que exerciam na administração pública funções de realce.

Leiamos porém o que escrever o fino biógrafo do “Rei do Brasil” … “Lisboa se abrasileira como se respirasse o ar quente dos trópicos. Toma insensivelmente a cor da terra que a enriquece. Era natural que a opulenta possessão impressionasse a mãe pátria decadente. Portugal repovoa-se de portugueses que fizeram fortuna na América, funcionários e militares repatriados estudantes e clérigos que transportaram, de torna-viagem, as usanças brasileiras; a reação é sutil; mas a transformação é rápida ! Lisboa muda-se em cidade intermediária entre Europa e o Equador … as cantigas, a música, a dama do Brasil invadem o país”(58). Eis um curiosos fenômeno sociológico de inversão de influência. A metrópole é que passa a adotar costumes e hábitos da sua colônia.

Numa palavra Portugal estava se abrasileirando – na economia, na política e na sociedade. Prossegue P. Calmon na sua exposição: “industrias, comercio, ordens religiosas, a nobreza de Portugal dependiam dos rendimentos coloniais; do Brasil saía o melhor quinhão do orçamento, a moeda circulante, o grosso da exportação. Desde o reinado de D. João V a administração portuguesa realizava prodígios para defender, organizar policiar, contentar o corrigir a colônia que tão exageradamente crescera. Tornara-se na corte, idéia fixa, que a rainha Luiza de Guzman transmitira aos descendentes, a do asilo do Brasil em caso de invasão estrangeira, e da mudança do Estado à iminência de uma guerra, a da transmigração como um recurso heróico. E menos para assegurar a monarquia do que para prender o Brasil – onde a raça e a pátria se renovavam, Portugal aquece-se ao seu sol tropical apartado da Europa pelo seu destino marítimo, batizado pela ameaça castelhana, com o pé na ponte da nau, para embarcar ao primeiro sinal, como uma nação que se não sentisse bem em terra.

O terremoto de 1755 influiu para essa aparência de instabilidade, para esse mal estar indistinto, para essa inquietação de um povo agarrado a sua nesga fértil do continente, mas com a alma transportada para duas mil léguas além, onde o Brasil engendrara a sua civilização mestiça”(59).

Ir para as Índias distantes ou para a África tórrida não seria inteligente. Essas outras partes do domínio ultramarino tinha muito pouco dum Portugal do ultramar. O brasil não, esse era como que uma continuidade, uma projeção americana da casa portuguesa. O Regente indo para lá continuava em Portugal, até juridicamente não transpunha as fronteiras do Reino, pois dentro do Império onde ele estivesse aí seria a sede, a metrópole da administração, o centro político. Ir para o Brasil era espiritualmente, econômica e sociológica e politicamente continuar em Portugal – o Brasil era só um Portugal maior e do outro lado do mar. Lapidarmente escreveu o articulista da “A Dinastia e a Revolução de Setembro”: “ Se a casa de Bragança não tivesse o Brasil em 1807, em vão hoje na Europa se buscaria o trono português”(60). Não era nenhuma novidade na Europa de então – como não o é na Europa de hoje (61) o deslocamento do centro político, da sede de governo de um país, por força da imperiosas circunstâncias da guerra. Não era o Regente de Portugal o primeiro que se retirara ante a avalanche que a revolução coroada estava provocando no mundo. Outros mais poderosos já o tinham feito e com muito menos honra e felicidade. Em Londres – esse hotel de exilados pela guerra – estava já o Stathouder da Holanda. Havia reis sobrando na Europa – velhas  e respeitáveis dinastias que os Bonapartes substituíam. Havia uma verdadeira razzia de tronos. Os Reis das Sicílias, Parmas, Toscana, o Doge de Veneza estavam ofuscados pelo novo sol que se levantava. “A Sta. Sé, a Áustria, a Rússia, trêmulas, vacilantes, quase servis ante o vencedor de Austerlitz”(62). Mais tarde as Majestades Católicas se atirariam nos braços do Imperador – a majestade revolucionária – escrevendo aquela triste história do cativeiro de Valancay. Somente os Braganças escaparam desta liquidação forçada de tronos e de dinastias. Não houvesse outros resultados positivos da retirada esse era já bastante para justificar o ato de Clemente. Esse simples deslocamento de centro político, transtornou os planos de muitos gabinetes e arredou o imperialismo de outros.

Antes do mais cortou as pretensões do aliado britânico, conservando a integridade do Império e salvando o Brasil. Pôs termo também às veleidades espanholas. Os espanhóis avançariam sem dúvida nenhuma nas possessões americanas logo que Portugal estivesse reduzido à discreção pelos franceses. E no fundo o segredo do seu jogo político com a França contra seu aliado natural foi todo orientado por essas cogitações de política americana. Para a Espanha era assas conveniente que o vizinho fosse empolgado por um invasor pois só assim a integridade do seu império poderia ser comprometida. E esses planos espanhóis não são mera hipótese, chegaram a se esboçar concretamente com a invasão do sul do Brasil por tropas platina. Plano esse que se denunciavam através dos sonhos nada modestos de D. Pedro Cevallos … (63).

Igualmente D. João passando-se para o Brasil armou-se de fortes trunfos para uma futura jogada com a Espanha … Se esta se comportasse mal na Europa incomodando o seu vizinho D. João muito simplesmente avançava no Vice-Reinado do Prata sem grande cerimônia … E a história liberal ainda teima em pintar esse manhoso Rei como um imbecil desprovido de inteligência … Com o trono assentado no grande império americano sentia-se D. João mais independente, mais livre e mais à vontade para discutir em futuros congressos de paz geral. Era agora o monarca europeu mais independente. Há mais ainda: frustou o programa de Napoleão. Também este tinha as suas veleidades para com o Brasil – possivelmente para daí fazer ponto de apoio para uma conquista sul americana e possivelmente para ferir o imperialismo mercantil inglês e estreitar o bloqueio.

A ocupação do Brasil e vale dizer a posse de toda esta banda da América significava um grande golpe nas rotas inglesas, no seu domínio marítimo. Leiamos essas eloqüentes palavras tiradas duma obra editada em 1809: “ He notoriamente público que os Generais Kellerman, Labord e Loysson trazião patentes de governadores do Rio de Janeiro, Baía e Maranhão para onde deviam passar na Esquadra Portuguesa auxiliada pela Esquadra Russa, que entrou no Porto de Lisboa no dia 9, 11 e 12 de Novembro de 1807, servindo-se como he de supor, da mesma traição, com que obteve à cedência dos Reinos da Espanha”(64). Não é difícil compreender, assim, o quanto D. João contrariou os planos franceses. E somente assim se explica que Junot escrevesse ao seu amo que “tout était perdu”.

A retirada para o Brasil além do mais salvou a independência portuguesa e possibilitou uma reação oportuna da consciência nacional portuguesa. Na península a derrota francesa não seria apenas um fracasso militar, mas sobretudo ideológica seria a vitória de uma consciência nacional contra a revolução. Na península travou-se a guerra entre a nação por intermédio do povo e a ideologia que o exército invasor representava. Das monarquia européias uma houve, a de Bragança, que sem sair de seus domínios, pode escapar aso destino das demais e resguardar o princípio dinástico. Luiz Norton escreveu que à transferência para o Brasil “se deve naturalmente a sobrevivência da nacionalidade portuguesa, diferenciada e salva da revoluta e absorvente doutrina de Bonaparte”(65).qual seria a sorte de Portugal se depois da paz geral chegasse a qualquer Congresso reduzido `penas à sua faixa européia? Possivelmente ninguém lhe prestaria atenção tão pouco se preocupariam as potências com a devolução das suas colônias. Quem sabe se a Espanha não realizaria o seu projeto de incorporar o vizinho? Essas afirmações fundamentam-se numa experiência histórica de todos conhecida e portanto não se trata de mera hipóteses.

Leiamos este trecho do autor de La Formation de la Nacionalité Bresiliene: En mettan l’Océan – et un quelle étendue ! – entre lui et le plus grand des conquérants le souverain portugais agit d’accord non seulement avéc les régles de la plus élémentaire prudence, du moment que les moyens lui manquaiente de s’opposer à l’invason, masi selon les conseils d’une politique avisée puisqui’il échappa, seul parmi les têtes couronées de ‘Europe, au traitement humiliant que l’empereur tenait habituallment en ré serve pour les vielles dynasties, les monarchies du droit divin. Et, en plus de cela, il maintint, intact l’autonomie et l’intégrité de ses domaines raison d’être de sa royauté; ne cessa point d’être un facteur non négligeable dons les affaires du continent qui’il avait desértr pour un plus vaste scéne”(66). Vamos pois concluir com aquele expressivo julgamento de Oliveira Lima: … “é muito mais justo considerar a transladação da corte para o Rio de Janeiro como uma inteligente e feliz manobra política do que como uma deserção cobarde”(67).

De toda essa longa exposição podem ser tiradas 3 conclusões:

1º ) – A transladação para o Brasil fazia parte como que duma herança política da monarquia e por conseqüência não foi improvisada pelo terror de 1807.

2º ) – Em 1807 Portugal não podia romper com a Inglaterra – correndo o Império Ultramarino o risco de ser posto a saque por ingleses e espanhóis – nem resistir a uma invasão francesa – em virtude da sua posição interna, e por força do poderio napoleônico. Logo a retirada para o Brasil era a única solução que se impunha naquela hora.

3º ) – Além de garantir a integridade do Império detendo o imperialismo inglês pela aliança do momento e as veleidades espanholas no Prata em virtude duma posição de mais forte – a monarquia portuguesa evitou que o imperialismo neoplatônico se realizasse completamente e provocou uma reação nacional anti-francesa (68).  

    

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 Notas

 

 

(1)     = Ao ritmo da ampulheta, capítulo a Retirada para o Brasil publicado na revista Tradição (Recife) n.º 8, dezembro de 1938.

(2)    = J. P. Oliveira Martins, História de Portugal, II, 232. 3º edição, Lisboa, Liv. Bertrad, 1882. O incidente descrito pitorescamente pelo Michelet português parece mais criação imaginosa que um fato realmente ocorrido. A rainha louca não era a acreditar no que afirma Melo Morais, contrária à adoção da retirada para o Brasil como medida extrema. Escreveu M. Morais: “O Príncipe Regente que não querendo fazer sair seus filhos, sem participar a rainha sua mãe, o fez, dando-lhe os motivos, que a isso obrigavam e S. M. ouvindo atentamente, a exposição dos acontecimentos, e estado dos negócios circunstâncias e pareceres, que haviam respondeu ao filho: e tuas tias que ficarão aqui fazendo? Ou vamos todos, ou não vái ninguém: como se escreveu ultimamente para à França, espere-se pela resposta, e segundo o que vier disporás a jornada”. História da Transladação p. 53 – Daí conclui-se que o pensamento da Rainha era o mesmo que o de seu filho e de muitos membros do gabinete.

(3)    = J. Pandiá Calógeras, Formação Histórica do Brasil p. 74. Ed. Cia. Editora Nacional. Coleção Brasiliana. V. 42.

(4)     – Idem, ob., cit., p, 74. Parece que o plano do grande governador era estimular, com a régia presença, o desenvolvimento da jovem colônia. De relance escreve Luís Norton, “A Corte de Portugal no Brasil”. p, 18: “Martim Afonso de Souza, organizador da colonização sistemática do Brasil, teria sido um dos primeiros a aconselhar a transmigração da Família Real para a América do Sul, revelando a D. João III a extensão dos seus domínios neste continente e o valor prodigioso das riquezas que nele se encontravam profusamente distribuídas”

(5)    ) – Dr. A . J. Melo Morais História da Transladação da Corte Portuguesa para o Brasil em 1807 – 1808 p, 13 Ed. 1872. Rio

(6)    ) – Ob. cit. p, 74

(7)    ) – H. Handelmann, História do Brasil, pg, 725. Tradução e edição do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

(8)    ) – Ob. cit. pp., 19 – 20. A escolha do Recife para cabeça do Império, para sede da Monarquia, justificava-se não só em virtude da importância que Pernambuco veio assumir com a expulsão dos holandeses como pela posição geográfica da sua capital situada na rota das grandes estradas marítimas.

(9)    ) – Melo Morais, ob. cit. p, 20.

(10)  ) – a propósito desse plano e de outros semelhantes , informa Tobias Monteiro, História do Império, Elaboração da Independência (ed. F. Briget e Cia., Rio 1927) pp. 46-7 “quando Luiz XIV casou uma filha de Felipe IV da Espanha e declarou já não haver Pirineus, receou-se a divisão de Portugal entre aqueles dois soberanos conquistadores. Então o Pe. António Vieira aconselhou a passagem da sede da Monarquia para o Brasil. era ainda corrente que Alexandre de Gusmão dera a mesma idéia a D. João V e D. José chegara a ter a esquadra pronta para atravessar o oceano em 1762, quando Portugal foi invadido por dois exércitos, de França e Espanha”. Mais tarde Silvestre Pinheiro, ministro de D. João VI, reconhecerá o fundamento dos conselhos daqueles estadistas “sustentando a opinião, escreve Tobias Monteiro, de não restar à Coroa outro recurso “senão o de procurar quanto antes nas suas colônias um asilo contra a hidra nascente, que jurava a inteira destruição das monarquias da Europa”.

(11)   ) – Essa memória é largamente transcrita por Melo Morais, ob. cit. pp. 13-19, e por Southey, História do Brasil T. V. 382.

(12)  ) – Conselheiro J. M. Pereira da Silva, História da Fundação do Império Brasileiro, I, 108. Ed. De 1864.

(13)  ) – in Melo Morais, ob. cit. p, 13.

(14)  ) – Justificadamente escreveu Pereira da Silva, ob. cit. , “não era nova a idéia apresentada por Lorde Strangford, de transferir-se a sede da Monarquia para a Colônia do Brasil, e de lá espreitar-se os acontecimentos da Europa durante as épocas de crise .nem fora imaginada por estadistas ingleses na intenção de proteger e salvar a autonomia do povo português” . ainda o mesmo historiador notícia que no reinado de Afonso V houve negociações entre o governo espanhol e português acerca de transferência da Corte. A proposta do governo espanhol se resumia em receber “como seu o território português da Europa, e reconhecendo a legitimidade da casa de Bragança sobre a colônia americana, para onde transferindo-se, continuaria a monarquia portuguesa”. Pereira da Silva, ob. cit. I 108.

(15)  ) – V. Tobias Monteiro ob. cit. p. 47 cf. igualmente Warden, “Histoire de L’Empire du Brésil” etc…, Tomo II, p. 132. Warden escreve : “Vauban avit suggeré à Phelippe V la translation de la Cour au Brésil, aprés la levée au Siége de Barcelone” cit. por Luís Norton, ob. cit., p, 20,in nota.

(16)  ) – Tobias Monteiro, ob. cit. p. 47

(17)  Varbhagem ( Visc, Porto Seguro) História Geral do Brasil IV. 420 Ed. Cia. Melhoramentos S. Paulo. Anotada por Capistrano e R. Garcia.

(18)  ) – Idem. Ob. cit. IV, 399

(19)  ) – Nota de Garcia a Varnhagem, ob. cit. IV p. 420

(20)) – Varnhagem, ob. cit. V. p. 15 Do plano desse anônimo arbitrista diz Varnhagem “Sem pretender primar pelo estilo e locução, sustenta, com bastante clareza, o princípio de que, com o aumento e maior riqueza da povoação, se engrandecem os estados, propõe que, transferindo-se ao Brasil a Corte, afim de ficar até mais independente das convulsões da Europa, se admitissem colonos de todas as nações e todas as religiões, e propõe razoáveis planos de conquista para o Sul, de sementeiras de bosques por essas bandas, e o estabelecimento de companhias de melhoramento da indústria, elaboração das minas etc.” p. 16 V

(21)  ) – Melo Morais, ob. cit. p. 12.

(22)) – Carta mencionada por L. Norton, ob. cit. pp. 15-16.

(23)) – Melo Morais, ob. cit. pp 45-46.

(24)) – É preciso não esquecer as palavras de Napoleão na entrevista ao embaixador português em Paris, D. Lourenço de Lima. V. Melo Morais, ob. cit. p 51.

(25)) – Pinheiro Chagas, História de Portugal, XI, p. 296.

(26)) – João Amaral e Rodrigues Cavalheiro Erratas à História de Portugal, p. 256. Liv. Tavares Martins, Porto 1940.

(27)) – Melo Morais – ob. cit. p. 28 e seguintes.

(28)) – Trecho citado por Tobias Monteiro, ob. cit. p. 53 e igualmente por Melo Morais, ob. cit. pp 28 e seguintes, embora a tradução varie um pouco o sentido é o mesmo em ambas as fontes.

(29)) – Melo Morais, ob. cit. p. 28.

(30)) – Idem, Idem, p. 25

(31)  ) – Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, p. 58.

(32)) – Tobias Monteiro, ob. cit. p. 27.

(33)) – Convém não esquecer as suas tentativas em 1806 – contra Buenos Aires.

(34)) – Ob. cit. p. 24

(35)) – Não é custoso supor o que teria acontecido na hipótese de Portugal recuar-se a entregar a sua esquadra  o bombardeio de Copenhague é um índice da decisão e realismo frio da política inglesa. As notas de Strangford são claras nesse sentido. Diz Tobias Monteiro, ob. cit. p. 5, que das instruções dadas por Fox constava a recomendação de utilizar a força para impedir que os navios portugueses caíssem nas mãos dos franceses.

(36)) – Nota citada por Tobias Monteiro, ob. cit. 24.

(37)) – Transcrito por Melo Morais, ob. cit. pp. 25 – 47 in nota.

(38)) – J. Ameal, História de Portugal, p. 570

(39)) – Oliveira Martins, História de Portugal, II, 237 Pinheiro Chagas, ob. cit. XI, 296, resumiu este dilema nos seguintes períodos: “se toma partido da Inglaterra, é invadido pela França o seu território continental; se toma partido da França, a Inglaterra apodera-se-lhe das colônias.”

(40)) – V. Pinheiro Chagas, ob. cit.

(41)  ) – A proclamação do Regente dizia que as tropas marchavam “muito particularmente contra a Minha Real Pessoa”.

(42)) – O manifesto de Junot aos habitantes de Lisboa confirmava a afirmativa do Regente:  “Mon armée va entrar dans vos murs. Elle y venait sauve votre port et votre Prince (grifos nossos) de l’influence de l’Anglaterre” ( Varnhegem ob. cit. V 63) além disso é sabido que Napoleão recomendara: nada conceder ao Príncipe do Brasil, mesmo que ele se prometa a fazer guerra à Inglaterra…

(43)) – ob. cit. p. 725

(44)) – V. capítulo “O Copiador de Junot – “ in Ao Princípio era o Verbo. A Sardinha, Ed. Gama. Lisboa.

(45)) – Ob. cit. p. 53

(46)) – M. Morais Ob. cit. 50

(47)D. João conhecendo a traição que ameaçava tudo perder deu de viva voz, ao Visconde do Rio Seco instruções muito reservadas prevenindo – o de que não estivesse por ordem de ninguém.

(48)) – Entre outras condições exigia o representante inglês “a abertura dos portos do Brasil, a concorrência livre e reservada à Inglaterra, marcando-lhe logo, uma tarifa de direitos insignificantes, e até que um dos portos do Brasil fosse logo entregue à Inglaterra”. Melo Morais ob. cit. p. 59.

(49)) – Ob. cit. p. 74.

(50)) – Oliveira Lima, ob. cit. p. 47. Basta lembrar que toda a régia prataria cinzelada pelos Germain e os milhares de volumes da Biblioteca Barbosa Machado – foram encaixotados sem nada se perder. Ora tal coordenação de pormenores não é próprio de quem foge …

(51)  ) – Depois de salientar que “era opinião corrente em Lisboa que se o inimigo se aproximasse da fronteira, o Príncipe Regente abandonaria o país “refere Tobias Monteiro, ob. cit. p. 22, os seguintes fatos: “a 25 de setembro o ministro americano considerava muito rigoroso o segredo guardado pelo Governo acerca do estado dos negócios e das medidas a tomar; mas no dia 27 já se dizia informado de estar deliberada a partida para o Brasil, no caso do exército francês invadir o país. O encarregado de negócios da Suécia sabia desde o começo do mês que a idéia da retirada para a América ganhava terreno cada dia e enxergava no apresto dos navios a sua próxima realização; em oficio de 29 dava notícias de uma reunião do Conselho de Estado, celebrado a 23, só restava aquele alvitre”.

(52)) – História do Cerco do Porto, Simão José da Luz Soriano. A Leite Guimarães Editor. Nova edição ilustrada. Porto 1879 T. I, p. 152.

(53)) – Ob. cit. p. 58.

(54)) – É lícito por em dúvida se o Império salvar-se-ia com a simples transmigração da Realeza para uma ilha. Terminaria sendo forçada a vender aos ingleses pedaços do mundo português ultramarino para garantir a própria subsistência.

(55)) – Ob. cit. I, 80.

(56)) – Idem, pp, 84 – 5

(57)) – Idem 80

(58)– História Social do Brasil I ( Espirito da Sociedade colonial) p. 261. Coleção Brasiliana V 40.

(59)) – Idem p. 263.

(60)) – Citado por A Sardinha in “A retirada para o Brasil”, loc. Cit.

(61)  ) – É preciso lembrar que aos Bragança emigrados não acontecia o mesmo que às outras majestades exiladas. Aqueles continuavam, embora ausentes de Lisboa, juridicamente dentro do país pois qualquer ponto do Império fazia parte dum grande todo – e por isso suas funções não sofriam interregno. Ao passo que os outros estavam de fato exilados e sem o poder de exercício. Modernamente para sanar certos inconvenientes jurídicos decorrentes dessa forçada emigração de governos que não dispõe de Império criou-se a ficção de Estado sem território. Para os Braganças não houve necessidade de subverter velhos princípios de Direito Constitucional e Teoria do Estado…

(62)) – João Amaral e Rodrigues Cavalheiro Erratas à História de Portugal. P. 259.

(63)) – V. Handelmann, ob. cit. 678 e seguintes. Lembra este historiador que ainda em 1801 logo que na América do Sul se teve conhecimento da guerra de Espanha e França contra Portugal “limitaram os Estados Coloniais o exemplo das mães-pátrias; uma esquadra espanhola penetrou, pelo Paraguai acima, em Mato Grosso, e bloqueou o forte brasileiro de fronteira Nova Coimbra”” E os platinos não levaram a melhor graças ao valoroso comandante do forte em questão. Manda a honestidade que se diga que nós fizemos as nossas escaramuças contra nossos vizinhos … Isto não impede porém de reconhecer que o imperialismo platino, velho de muito tempo, constituía um perigo permanente para o extremo sul do Brasil..

(64)) – Citação tirada de “Erratas …”p. 269. Não esqueçamos a honrosa lealdade com que a esquadra russa se comportou, negando qualquer auxilio ao logrado Junot. V. Seniavine, Junot e D. João VI estudo de Sérgio Higino in Tradição ( Recife) n.º 22. Afirma fundadamente esse ensaísta que se o monarca pode continuar a “existir juridicamente intacta, no gozo de todas as suas prerrogativas e em pleno funcionamento todas as suas estruturas e subestruturas estatais” deve-se em parte àquela recusa.

(65)) – ob. cit. p. 17.

(66)) – Oliveira Lima, “Formation…” p. 128. Noutro livro escreve o mesmo A .: “Retirando-se para a América o Príncipe Regente, sem afinal perder mais do que o que possuía na Europa, escapava a todas as humilhações sofridas por seus parentes castelhanos, depostos à força, e além de dispor de todas as probabilidades para arredondar à custa da França e da Espanha inimigas e seu território ultramarino, mantinha-se na plenitude dos seus direitos, pretensões e esperanças. Era como que uma ameaça viva e constante a manutenção da integridade do sistema napoleônico. Qualquer negligência, qualquer desagregação seria logo aproveitada”. D. João VI no Brasil, p. 37.

(67)) – Idem, Idem.

(68)) – A Emigração interessou a Europa inteira. Escreve I Norton, ob. cit. p. 17 que ela “asseverava a continuidade dos princípios unitários das monarquias continentais européias; defendia-lhes, afina; os ideais de autonomia contra a concepção autocrática de um só imperialismo francês; salvava o sistema monárquico europeu da subversão dos Estados, cujos soberanos era prisioneiros ou reféns de Napoleão e cujas fronteiras eram por ele e para ele traçadas, ampliadas ou suprimidas, no sonho da Monarquia universal que visionara”.            

Transcrito: em Petrópolis, Agosto de 2.000

Por: Henrique Alberto Silveira Luiz

Motivo: Por muito amor à minha Pátria. Por meu respeito e dedicação à causa Monarquica Portuguesa e Brasileira. Acredito que qualquer pessoa que queira, dentro da realidade e verdade, discutir a História de Portugal e sua – então – colonia Brasil deve conhecer este trabalho.

      

          

 

Anúncios

Sobre healsilu1947

Sou Cidadão português, nascido nd Ilha Terceira, Açores.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s