As origens Açorianas do Visconde de Mauá

AS ORIGENS AÇORIANAS DO VISCONDE DE MAUÁ

Em 1842 o jovem Irineu Evangelista de Souza, sócio da Empresa Carrunthers & Cº, embarca num navio da “Companhia Real Inglesa de Navegação” pela primeira vez segue em viagem para a Europa. Seu destino era conhecer as indústrias de base na cidade de Manchester na Inglaterra.

Fascinado com as máquinas de produção em escala de tecido de lã e linho, as forjas e as caldeiras gigantes de fundição de ferro e bronze da prospera indústria naval inglesa, além de visitar a grande novidade daquele tempo, as instalações da Stenphenson & Cº que produzia uma locomotiva movida a carvão.

Tudo lhe era novidade, e maravilhado pensava em trazer estas novidades cientificas para o Brasil.

Pensava também, observando aos trabalhadores destas fabricas, de fundição e estaleiros, além dos estabelecimentos têxtil, que não encontraria mão de obra qualificada ou mesmo,  preparada para tais ofícios da indústria no Brasil.

Foi seu mentor, amigo e sócio Richard Carrunthers, ao despedir-se no Porto de Southrampton, que deu-lhe a ideia; …”Ereneo, por que não procura esta mão de obra na terra natal de seus pais e avós…?!?!?”.

E com esta ideia fez escala na Ilha Terceira, no Arquipélago dos Açores, onde foi recepcionado por um tio-avô, Capitão Francisco José d´Avila, irmão de seu querido avô Capitão-Mor João d´Avila herói na batalha do cerco de Mercedes na antiga Colônia portuguesa do Santíssimo Sacramento no atual Uruguai.

Tinha seu avô João d´Avila, nascido na Ilha Terceira em 1719, partido para o distante Brasil em 1753, no posto de Capitão-Mor, com o comando de bravos açorianos que lutariam heroicamente contra a poderosa investida militar portenha, pois Buenos Aires era o principal rival comercial no rio da Prata a pequena porém prospera Colônia do Santíssimo Sacramento.

  Era o germe da iniciativa familiar que movia estes heroicos açorianos, que carregavam junto suas esposas e filhos, fosse no trabalho na pesca marítima, fosse no campo de batalha, fizeram povoar aquela distante Colônia do Santíssimo Sacramento em 19 de março de 1680, resistindo as várias invertidas militares de Buenos Aires até o confronto final em 1759, quando um exercito gigantesco de portenhos amparados pela armada espanhola destruíram aquela prospera colônia portuguesa.  

Seu avô resistiu em batalha com grande heroísmo perdendo dois irmãos no confronto armado contra os castelhanos e portenhos. Chegou a salvar as mulheres, idosos e crianças defendendo a matriz da cidade onde estavam refugiados, último bastião, apenas dez soldados ao seu comando contra toda a armada espanhola e o exercito portenho. Uma bala de canhão castelhana atingiu o altar mor da Igreja Matriz onde a população se refugiara, mas para espanto de todos ninguém pereceu, somente o altar de talha dourada ardeu restando intacta a imagem de Nossa Senhora da Glória do Pilar de grande devoção açoriana e a população no interior da Igreja que também nada sofreu com a grande explosão.

O Comandante Portenho ordenou cessar fogo, e impressionado permitiu aos heroicos açorianos deixarem a cidade com suas armas e provisões (as que lhes restavam) em direção da fronteira do Rio Grande do Sul.

As notícias do episódio chegaram a Portugal e aos ouvidos de El Rey D. José I, que resolve conceder aos soldados e suas famílias terras em São Pedro do Rio Grande do Sul. Ao heroico Capitão-mor João d´Avila concedeu uma Sesmaria no Arroio Grande onde em 27 de dezembro (dia de São Ireneo dicípulo de São João Evangelista) nascia o “…innocente Ireneo, baptizado no dia 28 de dezembro…” de 1813, na Estância de seu pai Tenente-Coronel  João Evangelista d´Avila e Souza.

Como curiosidade o bravo Capitão-Mor João d´Avila morreu comemorando a Independência do Brasil em 20 de novembro de 1822,…”após tomar uma barrica de vinho do Porto, ter bailado com duas netas he uma bisneta, passou mal, e posto sobre a meza do conselho faleceo tendo recebido a estrema unção de seo sobrinho padre Manoel d´Avila parocho da villa…”. Naquele momento descobriu-se que João d´Avila tinha 104 primaveras bem vividas …está ele e sua mulher enterrados no altar lateral da Matriz de Porto Alegre.

Tamanha influência da cultura açoreana na vida do Visconde de Mauá teria evidente força na escolha da mão de obra para suas industrias; no Estaleiro e Fundição da Ponta d´Areia, na Companhia de Gás do Rio de Janeiro, na Companhia de Rebocadores de São Pedro do Rio Grande, na Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, os braços fortes açoreano e olhanense estavam sempre presentes.

Retornemos a bela tarde de 25 de agosto de 1842, na Matriz do Santíssimo Salvador da Sé de Angra do Heroísmo, quando conduzido por seu tio Francisco José d´Avila, o jovem Irineu ao consistório da antiga Régia Irmandade de Nossa Senhora do Rosário é recebido solenemente como Irmão, como foram seus pais e avós, deu-se uma revolução na cabeça do futuro patrono da indústria, transportes ferroviários e da marinha mercante do Brasil.

Seria, não mais a mão de obra escrava, mas a trabalhadores livres, a conduzir o nascimento e desenvolvimento da indústria nacional. Juntando a estes mais tarde no ano de 1845 em seu juramento na Régia Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Pilar no Portugal continental, também faria Mauá arregimentar trabalhadores na heroica Vila de Olhão no Algarve. Influenciado pela leitura do livro de José Agostinho de Macedo “O Nono Argonauta” sobre os pescadores que vieram num caíque ao Rio de Janeiro avisar a D. João VI que no Algarve tinha sido expulsos os franceses em 1808, e da história contada por seu tio materno Capitão João Baptista de Carvalho que participou em 1831 do regate a Fragata Urânia pelo primeiro Marquês de Vianna (mais tarde seu contraparente por casamentos dos netos) com ajuda dos heroicos pescadores da vila de Olhão para leva-la a Ilha Terceira nos Açores onde se concentravam os Liberais que apoiariam D. Pedro Duque de Bragança Rei de Portugal e Imperador do Brasil em sua luta contra a tirania despótica de seu irmão D. Miguel que usurpara o trono de Portugal que era de sua filha D. Maria II.

Eram estes humildes pescadores olhanenses com suas famílias que vieram ao Rio de Janeiro a partir de 1811, que formaram o primeiro núcleo da colônia de trabalhadores da Fundição e depois Estaleiro da Ponta d´Areia a que se acrescentou em 1842 as famílias de açoreanos.

As irmandades religiosas foram uma mola colaboradora deste importante período na história do Brasil, na troca do trabalho servil escravo pela mão de obra livre. Muito antes dos italianos, alemães e japoneses, as famílias de açoreanos e olhanenses o que hoje na cidade de Niterói constitui o bairro da Ponta d´Areia.

Núcleo urbano organizado para a moradia dos funcionários do Estaleiro da Ponta d´Areia, que após a falência do grande Visconde de Mauá em 1878, tem seus antigos trabalhadores, e atuais descendentes, retornado a antiga atividade que antepassados em Olhão e nos Açores tinham, a pesca.

Lá fundaram ainda no século XIX, o Mercado São Pedro, para comercializar sua produção pesqueira, organizaram-se em irmandades (pois os sindicatos e as organizações trabalhistas só passariam existir com o Estado Novo de Getúlio Vargas nas décadas de 1930 e 1940), para se proteger e ajudar mutuamente.

No Rio de Janeiro, a Irmandade de Nossa Senhora da Candelária do Rio de Janeiro, o jovem “Irineo” foi feito Irmão ainda no distante ano de 1826 por seu Patrão portuense e depois sócio João Rodrigues Pereira d´Almeida que também era irmão na Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Pilar em Portugal. Alí o futuro Visconde de Mauá foi padrinho de; em 7 de novembro de 1833 de D. Luiza de Lima e Silva de Loreto Viscondessa de Santa Monica, filha dos Duques de Caxias;  em 22 de abril de 1845 de José Maria da Silva Paranhos Junior Barão do Rio Branco, filho dos Viscondes do Rio Branco; em 12 de junho de 1842 do Conselheiro Dr. Alberto Irineo de Sá filho do Conselheiro José Maria de Sá e de D. Josepha Maria da Cunha, neto de Miguel da Cunha Pereira herói da guerra na Colônia do Santíssimo Sacramento no Uruguai; em 6 de agosto de 1859 de D. João Manuel de Menezes Marquês de Vianna filho de D. Antônio Rodrigues da Silva e D. Maria Amélia Manuel de Menezes, neto dos Marqueses de Vianna. O Visconde de Mauá era também irmão nas irmandades; da Santa Cruz dos Militares, de São Francisco de Paula e da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, esta ultima como Irmão Benemérito.

Concluímos assim que a influência da colonização açoriana e olhanense no Brasil do segundo reinado contribuiu para a mudança das relações de trabalho, saindo do estado servil agrário para o assalariado na indústria de base recém instaurada por Mauá a partir de 1842.

As irmandades religiosas que aglutinavam estas associações e colônias de imigrantes possibilitaram o melhor aproveitamento desta população a serem deslocadas para trabalhar e desenvolver esta indústria de base. Surgindo assim uma nova forma de ver a sociedade brasileira.

 

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2013

 

Eduardo André Chaves Nedehf Marquês de Viana.

 

 

 

 

Bibliografia:

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Sobre healsilu1947

Sou Cidadão português, nascido nd Ilha Terceira, Açores.
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