O Brasil é um País sério

Quer me parecer que nesta altura da vida política brasileira este artigo é atualíssimo, por isso aqui o registro.

Henrique Luiz – Magé 20 de agosto de 2014

Artigo do Embaixador Meira Penna (um Monarquista). VIVA A REPÚBLICA! Durante a campanha do Plebiscito, há pouco mais de dez anos, escrevi para uma revistinha do Movimento Parlamentarista Monárquico, Cara & Coroa, um artigo cujo argumento continua absolutamente atual. Desejo repeti-lo e atualizá-lo. Na época, os presidencialistas usaram de todos os métodos, lícitos e ilícitos, para combater nosso movimento, o que é típico dos métodos republicanos em nosso país. Uma alegação comum qualificava a monarquia de regime anacrônico, defasado e contrário ao desenvolvimento. É a primeira mentira. Japão, Grã-Bretanha, Países Baixos e os Escandinavos se colocam entre os de maior PIB per capita do planeta. Noruega e Luxemburgo gozam, aliás, de uma renda pessoal média anual de 36 mil dólares, a única acima da americana. A Espanha livrou-se do atraso, anarquia e conflitos internos, responsáveis pela mais sangrenta guerra civil do século, depois de se transformar em reino. Hoje, é o país que mais cresce na Europa. Na época do Império, nem um Napoleão III, uma rainha Victoria ou um Kaiser Guilherme I teria tido o topete de usar a nosso respeito a expressão que notabilizou De Gaulle. Éramos um país sério. Para demonstrar que há mais ridículo, atraso e desordem no regime adotado após o golpe militar de 15 de novembro, podemos lembrar uma das motivações reais do Proclamador – ele que jurara fidelidade ao Imperador e tudo ignorava do regime que implantou. Na confusão de intrigas e surpresas dessa journée des dupes – dia dos logrados – um dos ministros do Governo Provisório, Aristides Lobo, acentuou que o putsch “deixara o povo bestificado”. Bestificado certamente ficaria se soubesse um de seus pormenores. Deodoro da Fonseca era um conservador que detestava o líder liberal gaúcho Silveira Martins, escalado por Pedro II para ser o novo Primeiro-ministro no lugar do Visconde de Ouro Preto. A ciumeira entre os dois não era apenas ideológica. Tinha origem no comum apreço que ambos, na mocidade, haviam nutrido pela mesma mulher. Cherchez la femme! É o que a história sempre ensina. Talvez não fosse tanto o desgosto que, a um velho marechal reacionário, causava a subida ao poder de um político liberal, quanto o sentimento vingativo mais banal e humano em relação ao adversário que lhe roubara a namorada. Na época, pela boca alegre dos cariocas correu a quadrinha – que os leitores me desculparão de reproduzir não obstante seu conteúdo levemente obsceno:Papagaio come milho, Coruja bebe azeite, Mas a pomba da Adelaide Come carne, bebe leite e choca ovo… Penetrando nos bastidores – ou na alcova da história -, descobrimos que a pomba responsável pela discórdia da adolescência dos dois lideres chamava-se de fato Adelaide. Tinha então 34 anos. Era viúva, talvez alegre, e filha de um general, herói da Guerra do Paraguai. No entanto, a ciumeira afetou Deodoro tão gravemente que fez pender a balança para o lado de um número diminuto de conspiradores, quase todos positivistas, autoritários e capitaneados por Benjamim Constant Botelho de Magalhães – que não devemos confundir com o grande pensador liberal franco-suíço Benjamin Constant de Rebecque. De qualquer forma, sob esse patronato erótico foi o golpe militar desferido por uma clique mal intencionada, à revelia do próprio Proclamador. Aliás, depois do golpe que frustrou os propósitos de Pedro II, Deodoro mandou debandar a tropa formada diante do Quartel General, no campo de Santa´Ana, hoje Praça da República, e sabem o que gritou para os soldados em ordem unida? “Viva Sua Majestade o Imperador!”. Assim pacificamente, com uma única baixa, terminou a gloriosa jornada republicana. De tais ridículos episódios é feita grande parte da história de nossa idolatrada Pátria Amada, Idolatrada. Meu pai, que na época era menino e morava no Largo de São Salvador, gostava de correr atrás da carruagem de Dom Pedro II, gritando “Viva a República!”, quando Sua Majestade ia visitar a filha no que é hoje o Palácio Guanabara. Detrás de suas barbas patriarcais, o Imperador respondia, sorrindo para o pirralho atrevido… O Império de fato jamais fizera qualquer objeção à expressão do pensamento de seus adversários. O fato é que, no momento, só dois deputados republicanos sentavam-se no Parlamento, o que prova o pouco efeito que, até então, tinha tido a livre propaganda da Ditadura republicana positivista. Grande é o contraste com a censura, a inquisição e a perseguição aos monarquistas que se estabeleceu pelo Decreto de 23 de dezembro do mesmo ano, conhecido como “Decreto Rolha”. O Império sempre fora perfeitamente liberal e democrático. E enquanto a monarquia foi perseguida pela famosa “cláusula pétrea”, dispositivo que perdurou até a última das publicações periódicas chamadas Constituições, a de 1988, a mais burra de todas – o regime republicano estabelecido em 1889 se distinguiu, desde o início, pelo personalismo, as iniciativas arbitrárias, as ilegalidades e os sistemas ditatoriais. A República teve que esperar 57 anos, até as eleições de 1946, para formar um governo legítimo e livremente escolhido pelo povo – se a isso se poderia chamar eleições! O dístico comteano era “Ordem e Progresso”. Mas, logo após a Constituição de 91, Floriano Peixoto violou-a ao assumir no lugar de Deodoro. Depois da primeira ditadura militar, conhecemos uma série de presidentes civis que, todos menos um, governaram sob estado de sítio. Na Guerra Civil no Sul, cem anos atrás, os republicanos se divertiram fuzilando a torto e a direito quem quer fosse liberal, federalista ou, por acaso, ainda monarquista como o almirante Saldanha da Gama. Positivista radical, terrorista e assassino, o coronel Moreira César mandava jogar seus inimigos pela janela quando o trem de Curitiba a Paranaguá atingia o precipício na Serra do Mar. O facínora acabou como merecia, trucidado pelos jagunços do Conselheiro antes de atingir Canudos. Na República Velha, não só as eleições eram uma farsa mas, para corrigir o mal, fizeram uma Revolução em 1930, dita liberal, que deu nos 15 anos da ditadura de Getúlio Vargas, seguidos de mais vinte de desordem, corrupção, uma sucessão de golpes de estado e a substituição do Positivismo autoritário por uma ideologia ainda pior, mais cruel e imbecil, o Marxismo totalitário. O grande e verboso intelectual baiano, Rui Barbosa, alcunhado de Águia de Haia, tentou duas vezes alcançar a Presidência, sendo frustrado por manobras sujas do caudilho gaúcho Pinheiro Machado, sucessor de Júlio de Castilhos e promotor de uma linhagem de outros caudilhos, Borges de Medeiros, Getúlio, Goulart e Brizola. A Pinheiro Machado, o único personagem em cargo elevado que foi assassinado em nossa história, é atribuído o princípio fisiológico definidor do Patrimonialismo: “Para os amigos, tudo; para os inimigos, nada; para os indiferentes, lei neles!”. A versão mais grosseira: “para os amigos, marmelada; para os inimigos, bordoada…”. Para que possam “pegar”, são as leis no Brasil invariavelmente mal redigidas, ou feitas de tal modo que favoreçam este ou aquele personagem, esta ou aquela facção, este ou aquele grupo de pressão ou corporação empenhada em privatiza o Bem Público para seu bel prazer. As leis às vezes têm nome. São normas especialmente inventadas no interesse de determinada família. A lei Chateaubriand por exemplo, protege os filhos adulterinos. A lei Portella foi concebida para ajudar a viúva de determinado político, um prestigioso senador que morreu de determinada moléstia. No caso, não se deve chercher la femme, mas chercher l´homme, procurar o homem a quem é destinado o benefício e o privilégio. Pensam que as coisas mudaram? Mudaram um pouco. Mas o que dizer das viagens de uma determinada senadora à Argentina às custas do Tesouro nacional, ou de um determinado Presidente ao Oriente Médio? Quando D. Pedro II foi à Terra Santa, pagou de seu bolso a viagem e as despesas dos poucos que o acompanharam… E não visitou nenhum pirata terrorista da costa que, na época, era apropriadamente conhecida como Barbary Coast, a Costa da Barbaria. No regime que vigora em nosso país há 115 anos, “não há senão mentira e mentira”, dizia Rui Barbosa, um liberal de convicções, republicano por conveniência de última hora, político frustrado por sempre procurar agir com mãos limpas e arrependido, ao final da vida, pela burrada que fizera. Citado por João de Scantimburgo, Rui Barbosa era. “Mentem as leis, mente a Constituição, mente o governo, mente o Congresso, tudo mente!”. Esqueceu-se de qualquer referência ao Judiciário. Mas como Rui continua atual ! Para terminar, valeria acentuar que a monarquia brasileira, como, aliás, todas as monarquias constitucionais parlamentaristas atuais, teve o dom de combinar num todo harmonioso os três tipos de autoridade ou “dominação” (Herrschaft) propostos por Weber: o tradicional, o carismático e o racional-legal. Este meu argumento central salienta o caráter obviamente tradicional do poder dinástico que permitiu atravessar, sem conflitos sérios, as crises da Independência, da conservação da unidade nacional e da Abolição. Os 50 anos de governo de Pedro II foi o mais racional e legal que tivemos. Ele não teve paralelo na história da América, nem mesmo da Europa continental contemporânea. Seu principal segredo consistiu em manter o carisma de um gentlemann de velha estirpe, de sabedoria inata e sem ambição de porder. Alguém que não pretendia ser Papai Noel, encarnar o paradigma sebastianista de pai dos pobres, ou pontificar, pelo mundo afora como lider dos Perrapados do Terceiro mundo.

Anúncios

Sobre healsilu1947

Sou Cidadão português, nascido nd Ilha Terceira, Açores.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a O Brasil é um País sério

  1. ADENDO:
    “ O Brasil não é um país sério ”.
    Esta frase, atribuída ao general Charles de Gaulle, presidente francês, na verdade foi pronunciada por um brasileiro: o embaixador aposentado Carlos Alves de Souza, que serviu em Paris entre 1956 e 1964. Durante o conflito pesqueiro entre o Brasil e França em 1962, conhecido como “guerra da lagosta”, o embaixador brasileiro foi chamado por de Gaulle para uma conversa sobre o problema.
    Carlos Alves de Souza saiu da reunião convencido de que a França estava com razão. Mais tarde, ao ser interrogado por um jornalista brasileiro, desabafou seu descontentamento com a “famosa” frase. Por engano, espalhou-se no Brasil que ela havia sido dita por de Gaulle, mito que, parece, permanece até nossos dias.
    Pelo sim e pelo não; cuidemo-nos ao dar entrevistas.
    Henrique Luiz

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s